
Estava quente e depois da grande escadaria que dava acesso à comunidade, ele foi a primeira coisa que vi, que observei. Estava com uma camisa xadrez mais desabotoada do que fechada, que tinha tons de azul com branco, mas poderia ser quaisquer outras cores, já que ele e suas vestes estavam extremamente sujos. Usava também uma calça social marrom velha que lhe era curta e um boné tortamente acomodado.
Com os olhos miúdos, porém atentos mirou-me e daqueles lábios que já não escondiam mais dentes, saiu a voz que até hoje, se fechar os olhos e me concentrar, consigo ouvir.
Mas não foi naquele instante de começo de dia que pude conhecê-lo de fato, que pude saber mais sobre sua história. Isso só veio a acontecer depois de todo um dia e depois de uma caminhada por uma trilha cheia de tocos de árvores e não iluminada.
Após vencermos sua deficiência auditiva com socos na porta e gritos audíveis a metros de distância, ele acordou e veio nos receber.
A doutora teria que colocar seu dedo no lugar, e eu ficaria encarregada de engrenar uma conversa animada com o intuito de distraí-lo. Distrair ele que tinha nada mais que 95 anos e uma surdez praticamente completa causada por um raio que veio de encontro ao barco onde trabalhava.
Passando do simples cardápio de seu almoço para a beleza de sua comunidade, consegui tirar sua atenção do procedimento que a doutora estava realizando. Mas a minha voz já não era tão clara e nítida como no início. Ela embargava. E para meu controle emocional passar a ser descontrole não demorou muito; seu Manuel não chorou com a dor que sentiu. Eu chorei.
Era necessário fazer algo, era necessário ajudá-lo, dar-lhe o que não tinha. Mas muito mais que uma garrafa de café quente, companhia, higiene, roupas novas e limpas, era esperança que lhe faltava. Em mãos eu não tinha nada mais que uma lanterna. Poderia eu, então, fazer algo? Felizmente, sim.
Dei-lhe o que mais tinha de valioso comigo; dei-lhe uma Semente, uma Palavra. Apresentei-lhe a Esperança, mesmo ele já não tendo sonhos. Apresentei-lhe a Vida, mesmo ele já tendo quase um século de vida. Apresentei-lhe o Caminho, mesmo ele não conseguindo andar com desenvoltura. Apresentei-lhe Cristo.
Foi abraçando-o, beijando várias vezes sua face enrugada e áspera e dizendo que eu não voltaria no dia seguinte, que me despedi. E sua dor anterior passou novamente pelos meus olhos e foi assim que retornei: através de passos confusos e mal iluminados, tropeçando pela trilha.
Com os olhos miúdos, porém atentos mirou-me e daqueles lábios que já não escondiam mais dentes, saiu a voz que até hoje, se fechar os olhos e me concentrar, consigo ouvir.
Mas não foi naquele instante de começo de dia que pude conhecê-lo de fato, que pude saber mais sobre sua história. Isso só veio a acontecer depois de todo um dia e depois de uma caminhada por uma trilha cheia de tocos de árvores e não iluminada.
Após vencermos sua deficiência auditiva com socos na porta e gritos audíveis a metros de distância, ele acordou e veio nos receber.
A doutora teria que colocar seu dedo no lugar, e eu ficaria encarregada de engrenar uma conversa animada com o intuito de distraí-lo. Distrair ele que tinha nada mais que 95 anos e uma surdez praticamente completa causada por um raio que veio de encontro ao barco onde trabalhava.
Passando do simples cardápio de seu almoço para a beleza de sua comunidade, consegui tirar sua atenção do procedimento que a doutora estava realizando. Mas a minha voz já não era tão clara e nítida como no início. Ela embargava. E para meu controle emocional passar a ser descontrole não demorou muito; seu Manuel não chorou com a dor que sentiu. Eu chorei.
Era necessário fazer algo, era necessário ajudá-lo, dar-lhe o que não tinha. Mas muito mais que uma garrafa de café quente, companhia, higiene, roupas novas e limpas, era esperança que lhe faltava. Em mãos eu não tinha nada mais que uma lanterna. Poderia eu, então, fazer algo? Felizmente, sim.
Dei-lhe o que mais tinha de valioso comigo; dei-lhe uma Semente, uma Palavra. Apresentei-lhe a Esperança, mesmo ele já não tendo sonhos. Apresentei-lhe a Vida, mesmo ele já tendo quase um século de vida. Apresentei-lhe o Caminho, mesmo ele não conseguindo andar com desenvoltura. Apresentei-lhe Cristo.
Foi abraçando-o, beijando várias vezes sua face enrugada e áspera e dizendo que eu não voltaria no dia seguinte, que me despedi. E sua dor anterior passou novamente pelos meus olhos e foi assim que retornei: através de passos confusos e mal iluminados, tropeçando pela trilha.
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