quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A menina dos brincos de pérola

Tici era uma menina muito pequena, mas que tinha sua falta de estatura compensada no tamanho dos olhos e no comprimento dos cabelos. E mesmo sendo nova e, como já fora dito, muito pequena, adorava pérolas.
Era em dias ensolarados e cheios de calor que a menina colocava seu vestido de bolinhas rodado e seus tão amados brincos perolados. Ao sol seus cabelos refletiam a luz do dia, sua pele ganhava um bronzeado natural e seus olhos se semicerravam para olhar o céu e ver o caminhar das nuvens.
As pessoas normais viam corações e anjos desenhados em branco no céu azul. Tici via ursos falantes dançando, abelhas-rainhas usando sapatos de salto alto e uma mãe colocando uma fita no cabelo da filha.
O que os outros não sabiam é que Tici só era assim tão incrível por causa de seus brincos de pérola. Aquelas duas bolinhas, postas uma em cada orelha eram a fonte de sua criatividade, doçura, meiguice, espontaneidade e candura.
À noite, a garota colocava a camisola, escovava os dentes, se deitava, desligava o abajur e só então tirava os brincos. Na manhã seguinte, praticamente sem abrir os olhos, buscava as pérolas sobre o criado-mudo e as recolocava. E, só assim, saía da cama. Até o dia em que suas mãos tatearam o móvel ao lado, mas não encontraram os brincos.

Então, obrigada, desceu da cama, olhou para baixo dela e sob o móvel. Procurou perto da poltrona, viu cada canto e até levantou o tapete. Os brincos de pérola não estavam ali.
Como sairia do quarto? Poderia falar com as pessoas? As nunvens ainda seriam brancas e fofas?
Foi depois de pensar e repensar dezenas de vezes o mesmo pensamento que Tici percebeu que não poderia ignorá-lo: teria que sair do quarto. Afinal, só assim poderia recuperar os objetos que lhe traziam segurança. Sairia, então. E saiu.
Passou pelo corredor, bisbilhotou a cozinha, atravessou a sala, mas não havia ninguém. Não podia ver as pessoas sem usar os brincos de pérolas? Onde estavam todos? E preferindo trocar a preocupação pelo anseio de achar o que tinha perdido, pôs-se a revistar a casa, todos seus vãos e frestras.
Um segundo desespero, maior que o primeiro, tomou conta de Tici: ela não os achara. Com o desespero, um segundo turbilhão de perguntas também jorrava em sua cabeça: como viveria? As pessoas a reconheceriam? Ela seria feliz?

Foi um olhar espantado para a janela com as cortinas abertas que interrompeu seus devaneios; através da janela ela viu o céu e as nuvens. Nuvens brancas e fofas que se permitiam serem moldadas e levadas pelo vento.
Em disparada correu para o quarto, colocou seu vestido, soltou os cabelos e correndo chegou à porta de entrada. Parou. Elevou a mão para abrir a porta. Retrocedeu. E, então, fixou a mão na maçaneta e girou-a.

Mal tinha aberto a porta e o sol a encontrou. Banhou-a. Iluminou-a.
O sorriso foi tão espontâneo quanto os giros que fazia com o corpo. Era tudo como antes. Parou e olhou para o céu, e viu novos amigos: grilos de gravata tocando violino, borboletas cozinhando e uma cobra de chapéu com muitas pernas, mas que ainda assim era uma cobra e não uma lagarta.
Não eram, então, os brincos de pérolas. Era seu coração que sentia. Era seu espírito que sorria. Sua essência era alegre e seus olhos é que enxergavam e decifravam a beleza ao redor. Não os brincos. Não as pérolas.

Era Tici. Ela era.

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