segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Gosta de mim

Quando
...acordo e estou de pijama velho?
...vou dormir e não penteio o cabelo?
...me maquio?
...tenho uma espinha na ponta do nariz?
...fico mal-humorada ou rio sem parar?
...falo pelo cotovelos até ao ponto de conter a respiração?
...estou com uma roupa rídicula mas "confortável"?
...uso havainas?
...fico na TPM?
...não entendo a piada e peço para contarem de novo?
...não tenho razão mas teimosamente digo que sim?
...acredito em tudo o que as pessoas contam por mais rídiculo e óbvio que possa ser?
...canto desafinada ao volante?
...falo alto e dou gargalhadas estridentes?
...estou bem arrumada e cheirosa?
...meu cabelo está liso, ondulado, marcado, solto ou preso num rabo de cavalo?
...uso óculos ou lentes de contato?
...estou com sono e saio completamente de mim?
...inicio uma conversa sobre cognitividade e infância?
...reclamo de dor mas não tomo remédio algum?
...não coloco crédito no celular por acreditar ser um desperdício de dinheiro e ligo a cobrar?
...estou doente?
...não escovo o dente?
...fico olhando sem parar para o meu espelho de bolsa?
...como compulsivamente?
...não sei organizar meus gastos e peço dinheiro emprestado no fim do mês?
...faço e refaço uma baliza mil vezes?
...estou errada?
...estou eufórica ou totalmente acabada?
...pinto a unha de um vermelho "cheguei"?
...nego querer aquilo que, sim, quero?
...tento agradar todo mundo?
...peco?
...não sou uma boa ouvinte nem boa conselheira?
...não sou uma boa companhia ou referência?
...piso na bola com as pessoas que mais amo?
...digo e escrevo bobagens?
...penso demais e não vejo as coisas ao meu redor?
...não tenho paciência nem tolerância?

Gosta de mim assim?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vinte e poucos anos

Meus vinte e poucos anos:
- pulo, canto, danço e pulo de novo
- erro, erro, acerto, erro, erro, acerto
- me apaixono, amo, esqueço
- sofro, choro, dou gargalhada
- viro a noite, durmo em aeroporto, não durmo, levanto e vou tirar uma soneca
- viajo de mochila, de trem, de carro, de ônibus, de avião e a pé
- passagem com seguro, sem seguro, em promoção, um dia antes, só ida
- acho lindo, uma gracinha, príncipe encantado
- é sem graça, é sapo
- ketchup, mostarda e maionese
- videokê, karaokê, sushi, mexicano e refri
- evento, shows, pista, concerto
- uso vestido, calça comprida, shorts e mini saia
- cabelo preso, cabelo solto, bonito, macio, sedoso
- cabelo desarrumado, em coque, em trança
- brinco de pérola, de argola
- uso maquiagem, não me maquio, passo gloss e não batom
- falo alto, canto dirigindo, desafino
- perco e acho a estribeira.


Você é flor

Teu nome me lembra flores; perfumadas, coloridas, cheirosas, cheias em formusa, que preguiçosamente se balançam, permitem-se serem agitadas e levadas pelo vento.
O vento. É só através dele que a multiplicação e a reprodução em larga escala acontecem. Até a mais linda, forte e resistente flor necessita de ajuda para perpetuar.
Assim também cada um de nós; assim também você.
O milagre das flores não está somente na beleza, em sua candura e perfume; o milagre é ser levada através de minúsculas partículas por um elemento invisível.
...
A tua beleza nunca foi tanta e teu ar confiante nunca foi tão sentido como são hoje. Hoje o milagre acontece. E se o vento, de fato, passar, você não se extinguirá; você será perpetuada, transformada, alcançando um lugar inigualável.
Nenhum jardim suspenso ou submerso, com lírios ou orquídeas, em estufa ou ao ar livre, é tão lindo, perfeito e grandioso como será aquele do qual você fará parte.
Você é bela. Você é flor que já renasceu.
(Em memória de Cely - 10/2009)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mundo insuficiente de pessoas insatisfeitas


A teoria de Freud sobre o desenvolvimento humano foi estudada por mim na faculdade acerca de dois anos atrás numa aula de psicologia da educação, e a partir disso vi um pouco a respeito da psicanálise, suas teorias, frentes de debate e principais alicerces. Porém, foi sobre sonhos que ouvi recentemente: seu significado, seus possíveis sentidos e função.
Os sonhos seriam válvulas de escape extremamente importantes para a sanidade, já que é no mundo dos sonhos que nos permitimos. A realização de nossos desejos inadequados para a vida real aconteceria nesse momento, então, que o inconsciente entra em ação.
Os psicanalistas acreditam que o sujeito não é sinônimo de indivíduo, ou seja, uma pessoa é composta por várias “personalidades” e não é “uma coisa só” como a palavra indivíduo sugere. Assim, quando você tem um sonho ruim, assustador, ele nada mais é que um desejo de um desses “eus”, que acabou se traduzindo através de um pesadelo. Mas não é nada disso que me prende a atenção ou leva-me a refletir sobre alguns pontos psicanalíticos.
O palestrante colocou em sua fala que “não há nada mais ridículo do que viver em busca da felicidade” e ainda “não há nada que exista que seja só amor”. É por isso que a psicanálise também aponta o sujeito como um ser eterna e completamente insatisfeito, cheio de conflitos e que nunca será plenamente feliz.
São tantas questões e assuntos subjetivos por traz dessas frases, mas limito-me a pensar no que isso pode significar para nossa sociedade.
Pessoas depressivas, maníacas, bipolares, fóbicas, psicopatas são o objeto de análise, estudo e cuidado de psicanalistas, psicólogos e psicoterapeutas por todo o mundo. Além disso, são esses mesmos profissionais que influenciam também milhares de pessoas sem patologias psíquicas através da Academia e mídia, por exemplo.
Ou seja, tais influências conseguem se mostrar a diversas pessoas em diferentes âmbitos sociais, apresentando um mundo eternamente insuficiente para pessoas eternamente insatisfeitas. Tais influências apresentam a impossibilidade de esperança, de sonhos, de planos; a impossibilidade de se ter um ponto de chegada.
“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade.” Isto é o que a Bíblia diz (2Pe 2: 1-2) sobre tais alicerces sociais e pessoas que adotam tais reflexões, comprometendo os seres humanos a viverem numa situação de fraqueza, impotência e desmotivação.
Assim, diferentemente do que a própria psicanálise e a ciência (num âmbito mais generalizado) pensam, suas doutrinas, leis e hipóteses vão de encontro ao racional, ao lógico.
Se o que falta no mundo é esperança, como declarar que a busca pela felicidade é inválida? Se é o amor nas pessoas que não tem mais suas chamas acesas, como não procurar isso num Ser que seja, sim, completo dele?
Prendo-me, portanto, ao fato de que essas bases sobre as quais a sociedade ocidental cresceu estão cheias de equívocos e preciptações, uma vez que o vazio dentro de cada ser humano que a própria psicanálise prega, só pode sugerir que há algo Existente, Único e Real.

"Prazer!Esperança, caminho e vida"




Estava quente e depois da grande escadaria que dava acesso à comunidade, ele foi a primeira coisa que vi, que observei. Estava com uma camisa xadrez mais desabotoada do que fechada, que tinha tons de azul com branco, mas poderia ser quaisquer outras cores, já que ele e suas vestes estavam extremamente sujos. Usava também uma calça social marrom velha que lhe era curta e um boné tortamente acomodado.
Com os olhos miúdos, porém atentos mirou-me e daqueles lábios que já não escondiam mais dentes, saiu a voz que até hoje, se fechar os olhos e me concentrar, consigo ouvir.
Mas não foi naquele instante de começo de dia que pude conhecê-lo de fato, que pude saber mais sobre sua história. Isso só veio a acontecer depois de todo um dia e depois de uma caminhada por uma trilha cheia de tocos de árvores e não iluminada.
Após vencermos sua deficiência auditiva com socos na porta e gritos audíveis a metros de distância, ele acordou e veio nos receber.
A doutora teria que colocar seu dedo no lugar, e eu ficaria encarregada de engrenar uma conversa animada com o intuito de distraí-lo. Distrair ele que tinha nada mais que 95 anos e uma surdez praticamente completa causada por um raio que veio de encontro ao barco onde trabalhava.
Passando do simples cardápio de seu almoço para a beleza de sua comunidade, consegui tirar sua atenção do procedimento que a doutora estava realizando. Mas a minha voz já não era tão clara e nítida como no início. Ela embargava. E para meu controle emocional passar a ser descontrole não demorou muito; seu Manuel não chorou com a dor que sentiu. Eu chorei.
Era necessário fazer algo, era necessário ajudá-lo, dar-lhe o que não tinha. Mas muito mais que uma garrafa de café quente, companhia, higiene, roupas novas e limpas, era esperança que lhe faltava. Em mãos eu não tinha nada mais que uma lanterna. Poderia eu, então, fazer algo? Felizmente, sim.
Dei-lhe o que mais tinha de valioso comigo; dei-lhe uma Semente, uma Palavra. Apresentei-lhe a Esperança, mesmo ele já não tendo sonhos. Apresentei-lhe a Vida, mesmo ele já tendo quase um século de vida. Apresentei-lhe o Caminho, mesmo ele não conseguindo andar com desenvoltura. Apresentei-lhe Cristo.
Foi abraçando-o, beijando várias vezes sua face enrugada e áspera e dizendo que eu não voltaria no dia seguinte, que me despedi. E sua dor anterior passou novamente pelos meus olhos e foi assim que retornei: através de passos confusos e mal iluminados, tropeçando pela trilha.