terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Banho

Chega. Cansada. Esquecida. Ofuscada por mais um dia que passou pelas pessoas que, assim como ela, labutaram o dia todo, as quais ficam imersas na balburdia da cidade grande.
O primeiro lugar pelo qual passa é a porta de entrada e em seguida a porta de seu quarto. Ensolarado, limpo, sem resquícios, sem migalhas. Também pudera, de tão pouco habitado que é. À noite comporta a cama e o corpo que sobre ela repousa. De dia, como já fora dito, é a luz do sol que abriga. Ensolarado.
Ao adentrar o cômodo encharcado de calor agradável, coloca sobre a escrivaninha seus pertences, que acabam por serem inerentes aquela pessoa de tanto acompanhá-la; guiá-la muitas vezes. As coisas, muito mais do que colocadas, são retiradas de si, como um soldado ou guerreiro ao se desarmar. Desgruda-lhe a armadura, aparta-lhe a arma. Assim também a bolsa, o relógio, os brincos, os sapatos, a blusa, as meias.
O corpo já sabe para onde ir, é mecânico, é diário, é estático e, paradoxalmente falando, se encaminha para o banheiro.
O restante da armadura é despido. Água. Passa pela porta. Adentra novamente. Mas não é o sol a esperar, a luz a iluminar. É a água e sua liquidez, sua umidade.
Cada gota é imensurável, incontável; toca-lhe a pele, aquecendo-lhe o corpo, massageando-lhe os nódulos do cansaço e do stress.
Mais atos mecânicos. Ensaboa, esfrega, limpa, lava, purifica.
Agacha-se. Cócoras. Senta-se sobre as pernas, joelhos no chão. Mas mesmo mudada a posição, a água não cessa. Os pingos em sua individualidade, únicos, continuam a cair, continuam a gotejar.
Mas, percebendo-se, repara no fluxo da água, no caminho que ela percorre, as formas que faz em seu corpo. São como mapas, como direções, como coordenadas. E ela observa e percebe cada uma daquelas gotas que insistem em tocar-lhe a pele.
Encolhida. Agarrada a si. Sente a água pesando em sua nuca, porém num súbito, a água esfria. Dura poucos segundos, mas é o suficiente para eriçar-lhe os pelos. Morna. Quente. Continua na mesma posição. Segundo súbito. Os pelos. Morna. Quente.
Desiste. Levanta-se. E para contrapor a posição em que estava por vários minutos, estica-se, alonga-se, espreguiça-se; sente cada extremidade.
A água para. O corpo sai e envolve-se para a secagem, para que cada gota que já não cai, mas ainda resta, já não reste mais. Seca. Desistiu, porque afinal, haveria outro súbito; a água tornar-se-ia fria de novo.

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